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História ou estória?
Thread poster: Ivana de Sousa Santos

Ivana de Sousa Santos  Identity Verified
Portugal
Local time: 07:07
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Jun 7, 2005

Caros colegas,

Tenho vindo a notar, nos últimos anos, uma tendência para a escrita de "estória" (=conto; narrativa) para diferenciar da ciência História.

Gostaria de saber a vossa opinião sobre este assunto, ou seja, até que ponto é mesmo correcta a utilização de "estória" e não "história" como sendo uma palavra homófona como tantas outras.

Sempre aprendi que o contexto é que as diferenciava e sempre escrevi "história" para os dois casos.

Confesso que a palavra "estórias" me choca, talvez por só recentemente a ter visto escrita em certos livros, e por vezes em traduções de inglês em que as palavras "history" e "story" interagem na mesma frase ou parágrafo.

Também vos choca esta utilização ou é muito comum? Sinto-me muito relutante em escrever a palavra "estória(s)" e em passar a utilizá-la. Não me refiro somente à sua utilização na tradução, mas igualmente no dia-a-dia.

Obrigada desde já pela vossa atenção e futuras respostas.
Ivana


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Paulo Celestino Guimaraes  Identity Verified
Brazil
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história e estória (em socioblog) Jun 7, 2005

Depois de uma breve investigação, Rui Oliveira, num esforço admirável, vem acrescentar algumas considerações de interesse no que diz respeito à questão dos termos história e estória (que aqui começara a ser debatida). Quanto à polémica entre os apologistas da diferenciação entre os vocábulos história e estória e aqueles que preconizam a manutenção do termo história como portador dos dois sentidos, Rui Oliveira apresenta a sua posição a partir de uma breve passagem de Jacques Le Goff na Enciclopédia Eunadi. Le Goff diz assim:

"A palavra "história" (em todas as línguas românicas e em inglês) vem do grego antigo historie, em dialecto jónico [Keuck 1934]. Esta forma deriva da raiz indo-europeia wid-, weid, "ver". Daí o sânscrito vettas "testemunha" e o grego histor "testemunha" no sentido de "aquele que vê". Esta concepção da visão como fonte essencial de conhecimento leva-nos à ideia que histor "aquele que vê" é também aquele que sabe; historein em grego antigo é "procurar saber", "informar-se". Historie significa pois «procurar». É este o sentido da palavra em Heródoto, no início das suas Histórias, que são, que são «investigações», «procuras» [cf. Benveniste 1969, t. II, pp. 173-174; Hartog 1980]. Ver, logo saber, é um primeiro problema. Mas nas línguas românicas (e noutras) "história" exprime, dois, senão três, conceitos diferentes. Significa: 1) esta «procura das acções realizadas pelos homens» (Heródoto) que esforça por se constituir em ciência, a ciência histórica; 2) o objecto de procura é o que os homens realizaram. Como diz Paul Veyne, «a história é, quer uma série de acontecimentos, quer a narração desta série de acontecimentos» [1968, p. 423]. Mas a história pode ter ainda um terceiro sentido, o de narração. Uma história é uma narração, verdadeira ou falsa, com base na «realidade histórica» ou puramente imaginária pode ser uma narração histórica ou uma fábula. O inglês escapa a esta última confusão porque distingue entre history e story (história e conto). As outras línguas europeias
esforçam-se por evitar esta ambiguidade. O italiano tem tendência para designar se não a ciência histórica, pelo menos as produções desta palavra por "storiografia", o alemão estabelece a diferença entre a actividade «científica», Geschichtschreibung, e a ciência histórica propriamente dita, Geschichtswissenschaft." (Le Goff, 1984: 158).

A partir das palavras de Le Goff, Rui Oliveira expõe, novamente, a sua posição quanto a esta questão. Preconiza, uma vez mais, que a distinção entre história e estória não tem razão de existir, na medida em que não existe nenhuma vantagem em ter dois termos monossémicos em vez de um vocábulo polissémico. Nas suas palavras: "Para mim, que entendo que as palavras não existem isoladas, mas em textos (entendendo o texto como um evento comunicativo), a polissemia de um termo não me incomoda, pois, habitualmente, o contexto comunicativo retira a ambiguidade que por vezes o termo possa ter devido aos seus vários significados. Quem entende a língua, exclusivamente, na sua vertente de sistema pode achar que a polissemia prejudica a compreensão. Esquecem-se, no entanto, que esse sistema é virtual e aquilo que pode ser ambíguo nesse sistema virtual, pode ser completamente claro num texto (aliás, isso acontece imenso nos exemplos apresentados como ambiguidades nas gramáticas que utilizam frases isoladas em que, quando se incluem essas frases em contextos reais, essas ambiguidades desaparecem. São em casos muito raros é que os termos são monossémicos. As pessoas têm a competência comunicativa («une connaissance conjuguée de normes de grammaire et de normes d'emploi» Hymes 1984:47), que lhes permite distinguir, entre outras coisas, o significado daquilo que lhe é dito. Por isso, entendo que a distinção história / estória não tem razão de existir, pois não é uma distinção essencial num contexto comunicativo. No entanto, longe estou de chamar ignorante a quem quiser usar estória, pois, se pessoalmente não a usarei, a língua não é estática e, se os seus utilizadores adoptarem a palavra, ela terá o destino que eles quiserem."

Mas, para além desse notável contributo, o autor vai mais longe no que diz respeito à etimologia do termo história, entrando em debate com a
contribuição de Carla Hilário de Almeida.

"Entre "rede" e "aquele que vê" parecia-me que para além de uma certa proximidade ortográfica (em grego), a raiz teria de ser diferente. Desde já digo que não sei muito de grego e sabendo que a Carla Hilário de Almeida sabe grego, quis perceber o porquê desta diferença de etimologia. Assim, como se vê no número 2 do anexo, encontrei na Biblioteca da FLUP um dicionário etimológico de grego, já antigo (1923), mas que me deu um primeiro esclarecimento pois em entradas sucessivas lá estavam histos e histor. Mais uma vez histor era apontado como etimologia de história. Mas, no entanto, faltava-me confirmar ainda a questão da raiz. E essa, encontrei-a na net, números 3 e 4. Tal como eu suspeitava, as duas palavras tinham raízes diferentes. Se eu conhecia a raiz de histor (wid-, weid), não sabia qual seria a raiz de histos. No entanto, o dicionário mencionado no número 2 dava-me uma pista, a palavra latina stamen. Depois de encontrar a página da net do American Heritage Dictionary, encontrei então a raiz de histos, que é sta (número 4 do anexo), o que tem lógica, pois, por exemplo, o verbo stare significa, "estar de pé, estar levantado". E, mais ainda, no número 4, no parágrafo III, lá está histos "web", "tissue". Parece-me pois que a etimologia de história estará efectivamente em histor. No número 5, uma pequena tradução de Heródoto na antologia Hélade, em que historie é traduzida por "informações". Ainda na mesma antologia a palavra historia aparece em textos de Platão e Aristóteles e é traduzida por, em ambos os casos, "investigações". Tudo isto concorda com a etimologia de histor."

Nota Adicional 1: As referências citadas por Rui Oliveira encontram-se num
ficheiro doc de anexos que o autor me enviou. Para quem quiser aprofundar a
questão encontra-se aqui disponível [historia.doc (203Kb)].

Nota Adicional 2: Nuno Dempster (Palavras & Letras), teceu algumas considerações em redor deste tópico num post que titulou «Uma história versus outra estória». Diz assim: "Li em tempos, algures, que estória seria para
suprir uma hipotética ausência de um termo equivalente à expressão short story, com a sua tipificidade narrativa, e para a distinguir do conto. Aquela em geral apresenta um desenvolvimento mais amplo no espaço e no tempo, mais ou menos extensa narrativanente, não exige, como canonicamente o conto exige, uma grande contenção na extensão narrativa e uma forte convergência para o final, um espaço e um tempo narrativos curtos (o tempo aqui muitas vezes surge aumentado por analepses), um fim inesperado. Mas história, no contexto em que é aplicada, nunca se pode confundir com História, como escreve Rui Oliveira no Socioblogue, ninguém as confundiria, e daí parecer-me inútil e não isento de pose, em português de Portugal, o emprego da palavra estória. No mais, trata-se apenas de uma escolha pessoal: a língua evolui independentemente da vontade de cada um. Hoje é sabido que os géneros se interpenetram, e, depois, para maior confusão, há quem chame contos a histórias, histórias a contos, mas também quem chame histórias a histórias, e contos, a contos, e ainda contos e romances a novelas. Não se trata de descobrir o sexo dos anjos, isto é, de saber o que é uma coisa e o que é outra num tempo em que a narrativa de ficção se apresenta cada vez mais mista, nem me refiro a países de língua portuguesa, como o Brasil, Angola e Moçambique, onde é sabido que a palavra estória é empregada com frequência. É, português, pensar alto, escrevendo e fixando melhor assim as ideias que vou apurando.". Ainda antes de o escrever já o autor havia observado o seguinte, na secção de comentários do Socio[B]logue: "Além de Guimarães Rosa, também já há bastante tempo Luandino Vieira usou o termo em Luuanda, se não estou enganado. No entanto, há uns dois anos li algures que "estória", nos escritores mais recentes, poderia ser um termo substituto da short story americana por distinção de conto (temos o termo história para isso), ambos formalmente diferentes no seu tipo de estrutura narrativa. E é curioso como, ao invés, Luísa Costa Gomes, por exemplo, intitula, como de contos, livros seus que, formalmente, seguem o desenvolvimento das short stories americanas. Já Teolinda Gersão, outro exemplo, intitula, quanto a mim muito correctamente, "Histórias de Ver e Andar", um livro de histórias que não têm de forma nenhuma a estrutura de contos. Até que ponto "estórias" será uma questão de boa consciência, ou mesmo de pose, não sei. Sei que em Portugal há histórias e há contos, correspondentes, como disse, a duas formas diferentes de narrativa curta de ficção (quanto ao desenvolvimento temporal e espacial)."


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Mário Seita  Identity Verified
Ireland
Local time: 07:07
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história vs estória Jun 7, 2005

Neste artigo do Ciberdúvidas está tudo bem explicado.

http://ciberduvidas.sapo.pt/controversias/108.html


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Paulo Celestino Guimaraes  Identity Verified
Brazil
Local time: 03:07
Member (2001)
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ainda sobre este assunto [estória e história] Jun 7, 2005

Segundo os dicionários, embora os dois termos tenham a mesma origem etimológica, do grego história, o segundo, estória, acabou se impondo no sentido de estabelecer entre os mesmos um conteúdo de verdade e de imaginário, respectivamente. Veja-se o seguinte, escrito por Francisco Marins e usado no dicionário digital Michaelis Português, sobre o termo estória: "Ouviram atentos aquelas estórias de mentira, de mula-sem-cabeça, do saci, do curupira. Mais tarde tiveram que mergulhar fundo nas histórias de verdade, para saber como foi construído o Brasil."

O autor, nesse trecho, usou ambos os termos, onde o primeiro é tomado no sentido de ficção (estória) e, o segundo, quando a intenção é informar sobre algo real, verdadeiro, não imaginário (história), i. é, o que realmente existe quanto ao conteúdo das narrativas referidas, se são ou não verdadeiras, se não passam de "criações" do imaginário, etc.

Entretanto, há lingüistas que resistem a essas distinções, como o Prof. Cláudio Moreno, Doutor em Letras, artigo publicado no encartado Cultura, ZH de 26/10/02, sob o título A história de "estória".

Segundo o autor, "Foi João Ribeiro, forte conhecedor de nosso idioma, quem propôs a adoção do termo estória, em 1919, para designar, no campo do Folclore, a narrativa popular, o conto tradicional, objeto de estudo dos especialistas daquela área." Explica que não se tratava de João Ribeiro querer inventar um novo termo porque, na verdade, ele já existia no português arcaico medieval. João Ribeiro estaria apenas revivendo-o, talvez porque o próprio inglês, que sofreu forte influência latina, convertera o termo historia (herdado pelo latim do grego) para as formas inglesas story e history.

Porém, se essa teria sido a razão, o Prof. Cláudio Moreno a rejeita, pois explica que o uso desses dois termos pelos ingleses era feito sem nenhuma distinção. Nos textos ingleses antigos, época dos copistas, eram usados indistintamente e com o mesmo significado. Dependeria do gosto de quem estivesse escrevendo. O fenômeno também ocorreu com o espanhol e o francês, mas ambos se depuraram e, hoje, existem apenas os termos "história" e "histoire".

Resumindo, não há porque o português copiar o inglês e, pelo que, o Prof. Cláudio Moreno repele tais distinções... E também a inovação do escritor mineiro Guimarães Rosa que simplesmente, abolindo o "H" do termo "história", a transformou em "estória", qualquer que fosse o correspondente significado. Isso ocorreu quando publicou, em 1962, sua obra PRIMEIRAS ESTÓRIAS. De então para cá, há quem prefira sempre escrever "estória", em quaisquer circunstâncias.

Ao registramos esses fatos, assalta-nos a dúvida de qual termo deve ser usado, de um ponto de vista de correção. De supor que fica ao gosto de cada um. O importante é saber dessas divergências para, segundo o momento, sabermos como nos justificar. E como a língua é um organismo vivo, o tempo acabará estabelecendo o que vai prevalecer.

Há alguns jornais brasileiros que defendem, no seu Manual de Estilo e Redação (tal como o do Jornal A Folha de S.Paulo e o Estado de S.Paulo) a não distinção entre estes dois termos. Adota-se portanto apenas história (tanto para fatos reais como os de ficção).


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Ana Thompson  Identity Verified
United States
Local time: 02:07
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História!! Jun 9, 2005

Os doutores de letras, linguistas e outros teóricos que me desculpem a simplicidade, mas quanto a mim história é história e ponto final.
Foi assim que aprendi, é assim que fica bonito, por isso até ver um dia os prontuários a sistematicamente considerarem história uma forma arcaica de estória, vou continuar a escrever assim, sem estar cá com outras histórias... (a mão até se me soluça quando escrevo "estória").

Mas isto é só a minha opinião...
Ana


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Ivana de Sousa Santos  Identity Verified
Portugal
Local time: 07:07
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TOPIC STARTER
Olá Ana Jun 13, 2005

O meu objectivo neste fórum era mesmo saber a opinião de outros colegas sobre este assunto e a sua opinião é muito semelhante à minha.

Vamos ver se existem mais opiniões por aí.

Um abraço,
Ivana


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Mónica Machado
United Kingdom
Local time: 07:07
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Resposta dada no Ciberdúvidas Jun 13, 2005

Olá a todos,

Para questões complicadas, controversas ou difíceis de resolver, eu recorro muitas vezes ao Ciberdúvidas:

http://ciberduvidas.sapo.pt

Nesse local todos os falantes de português, variantes europeia, brasileira ou africana, podem colocar as suas questões e ver esclarecidas todas as dúvidas.

Esta questão das palavras estória e história foi já lá abordada. Consultar:

http://ciberduvidas.sapo.pt/php/pesquisa.php?palavras=estória&oque=php/pesquisa.php

Espero que achem o Ciberdúvidas interessante. Eu sou uma fiel utilizadora.

Cumprimentos
Mónica Machado


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Vkthor
Local time: 07:07
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estória - pretendia dizer história? :-) Jun 21, 2005

Ivana de Sousa Santos escreveu:

O meu objectivo neste fórum era mesmo saber a opinião de outros colegas sobre este assunto e a sua opinião é muito semelhante à minha.

Vamos ver se existem mais opiniões por aí.

Um abraço,
Ivana



Olá. Só para deixar a minha opinião (tardia).

Quando tenho dúvidas uso o Priberam http://www.priberam.pt/dlpo/dlpo.aspx e só por curiosidade (pois não gosto MESMO NADA do termo estória) fui lá ver. O Flip encontrou muita coisa, mas nada de «estórias».

Sem querer criar 'flames' e valorizando quem pesquisou e encontrou o termo, para mim será sempre «portuleiro». Não uso. Lembro-me do meu velho livro «História de Portugal» da 4a. Classe e da «História do Capuchinho Vermelho». Antigo ditado português: Burro velho não aprende línguas. Novo ditado do Vkthor: Estórias novas não entram no meu vocabulário.

[off topic] Há dias pediram-me para traduzir um programa segundo o novo acordo ortográfico. Confesso que não consegui. Às duas por três já não conseguia distinguir se o que escrevia era um erro ortográfico ou a utilização correcta do acordo. Com o termo «estória» acontece-me o mesmo.

Xrs.


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