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Da crase às preposições, artigos e demonstrativos

By C. Daniel Andrade | Published  10/24/2011 | Portuguese | Recommendation:
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Author:
C. Daniel Andrade
Brazil
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Acho que a maioria dos brasileiros, incluindo professores e autores de gramáticas, complicam demais uma coisa simples como o uso da chamada crase.



Ajudaria muito, creio, se todo mundo pensasse o seguinte: algum falante nativo do português tem dúvida, por exemplo, quando usa DE e quando usa DA ou DAS? Não se diz 'Venho DE loja', mas 'Venho DA loja'. Nem 'Esqueceu DE malas', mas 'Esqueceu DAS malas'. Casos equivalentes são os contrastes entre EM e NA(S), bem como entre POR e PELA(S). Você cometeria o erro de dizer 'Coloque o leite EM geladeira', em vez de '[...] NA geladeira'? Ou 'Vá POR sombra', em vez de '[...] PELA sombra'?



Quem não comete erros nem tem dúvidas a respeito de casos como esses tem plenas condições de colocar um acento grave nas palavras 'A' ou 'AS' em casos como: 'ir A praia', 'referir-se A discussão', 'corresponder AS especificações'... A única diferença entre esses casos e os outros é que, nestes, costuma haver uma coincidência entre a pronúncia do artigo definido feminino (A) e a pronúncia da contração dele com a preposição A. Ou seja, enquanto há uma clara diferença de pronúncia entre EM e NA, entre DE e DA e entre POR e PELA, raramente se distingue oralmente A e À. A diferença costuma se restringir à escrita.



É importante acrescentar que certas preposições se contraem não apenas com artigos, mas por exemplo com as palavras tradicionalmente chamadas de pronomes demonstrativos: DE+ESSE(S)=DESSE(S), EM+ISSO=NISSO, DE+AQUELE(S)=DAQUELE(S), EM+AQUILO=NAQUILO, A+AQUILO=ÀQUILO, A+AQUELE(S)=ÀQUELE(S), A+AQUELA(S)=ÀQUELA(S). Também aqui, a diferença entre demonstrativo sozinho e demonstrativo contraído com a preposição 'a' costuma ser apenas escrita. E é simplesmente essa particularidade das contrações com a preposição 'a' que faz que recebam um nome específico. Esse tipo de contração costuma se chamar 'crase'.



Pronto, essa é toda a teoria da "misteriosa" crase. O resto é consequência e comentário, embora muitas vezes se insista em enfiar, na explicação sobre a grafia de uma mera contração, comentários - travestidos de regras - a respeito do uso da preposição A. Na verdade, isso já é outra coisa.



Quando se usa ou não a preposição DE? Diz-se, por exemplo, 'Gosto DE alguém' e não 'Gosto alguém'. E a preposição POR? Diz-se 'Torço POR você' ou 'Torço você'? Pode ser uma ou outra forma, dependendo do sentido, ou seja, dependendo da relação afetiva entre o emissor e o interlocutor da frase. E, finalmente, quando se usa a preposição A? Um exemplo claro é 'referir-se A algo' e 'corresponder A algo'.



Há exemplos confusos? Sim, mas não só em torno desta preposição, mas de outras, como na variação entre 'passar dificuldades' e 'passar POR dificuldades' ou entre 'namorar alguém' e 'namorar COM alguém'. Além das variações, há também casos de expressões fixas em que se usa espontaneamente uma preposição com ou sem artigo sem que o usuário precise dar ou conhecer explicações para isso. Por que se diz 'DE quebra' e não 'DA quebra'? Por que se diz 'NO duro' e não 'EM duro'? Explicações para isso exigem pesquisa de história da língua, algo que pode ser útil e interessante para certos propósitos, mas nunca necessário para simplesmente usar a língua. Por que então quebrar a cabeça considerando como parte de uma suposta teoria da presença ou ausência de crase a listagem de expressões como 'às vezes', 'à medida que', 'às cegas', 'assistir à novela', 'chegar a casa', 'cara a cara' e tantas outras? Julgo mais adequado lembrar simplesmente que 'a' é uma preposição, assim como o são 'de', 'em', 'com'... e que as línguas são dinâmicas e imprecisas.



Em geral, a confusão sobre o uso de preposições ou de outras palavras ou construções pode se basear, em certos casos, em uma dúvida mais profunda sobre a estrutura da língua ou sobre o conhecimento do mundo concreto. No entanto, muitas dúvidas dizem respeito meramente a que palavra ou construção é dotada de menos ou mais prestígio social ou é menos ou mais formal, ou, ainda, menos ou mais antiga. E há casos em que se pode simplesmente escolher uma ou outra opção, sem consequências significativas para o modo de seu texto oral ou escrito ser interpretado. Discernir cada caso requer larga experiência com situações filtradas pela linguagem ou feitas dela, quer de forma oral quer escrita.



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