Off topic: A propósito de títulos (Eng, Dr, Prof, PhD, etc, etc)
Thread poster: António Ribeiro

António Ribeiro  Identity Verified
Local time: 17:17
English to Portuguese
+ ...
Jun 10, 2004

Pediram-lhe para informar qual era a sua profissão. Ela hesitou, sem saber bem como se classificar.

"O que eu pergunto é se tem um trabalho", insistiu o funcionário.

"Claro que tenho um trabalho", exclamou a Maria. "Sou mãe".

"Nós não consideramos 'mãe' um trabalho. Vou colocar Dona de casa", disse o funcionário friamente.

Não voltei a lembrar-me desta história até ao dia em que me encontrei numa situação idêntica. A pessoa que me atendeu era obviamente uma funcionária de carreira, segura, eficiente, dona de um título sonante.

"Qual é a sua ocupação?", perguntou.

Não sei o que me fez dizer isto; as palavras simplesmente saltaram-me da boca para fora: "Sou Doutora em Desenvolvimento Infantil e em Relações Humanas."

A funcionária fez uma pausa, a caneta de tinta permanente a apontar para o ar, e olhou-me como quem diz que não ouviu bem. Eu repeti pausadamente, enfatizando as palavras mais significativas.

Então reparei, maravilhada, como ela ia escrevendo, com tinta preta, no questionário oficial.

"Posso perguntar", disse-me ela com novo interesse, "o que faz exactamente?"

Calmamente, sem qualquer traço de agitação na voz, ouvi-me responder: "Desenvolvo um programa a longo prazo (qualquer mãe faz isso), em laboratório e no campo experimental (normalmente eu teria dito dentro e fora de casa). Sou responsável por uma equipa (a minha família), e já recebi quatro projectos (todas meninas). Trabalho em regime de dedicação exclusiva (alguma mulher discorda???), o grau de exigência é próximo de 14 horas por dia (para não dizer 24...)".

Houve um crescente tom de respeito na voz da funcionária que acabou de preencher o formulário, se levantou, e pessoalmente me abriu a porta. Quando cheguei a casa, com o título da minha carreira erguido, fui recebida pela minha equipa - uma com 13 anos, outra com 7 e outra com 3. Do andar de cima, pude ouvir a minha nova experiência (uma bebé de seis meses), testando uma nova tonalidade de voz.

Senti-me triunfante! Maternidade... que carreira gloriosa! Assim, as avós deviam ser chamadas "Doutora Sénior em Desenvolvimento Infantil e em Relações Humanas", as bisavós: "Doutora Executiva-Sénior " e as tias: "Doutora-Assistente".


Autor desconhecido.

[Edited at 2004-06-10 15:36]


 

HCiborovius (X)
Local time: 09:17
German to Portuguese
+ ...
Um artigo fantástico! Jun 11, 2004

António Ribeiro wrote:

Pediram-lhe para informar qual era a sua profissão. Ela hesitou, sem saber bem como se classificar.

"O que eu pergunto é se tem um trabalho", insistiu o funcionário.

"Claro que tenho um trabalho", exclamou a Maria. "Sou mãe".

"Nós não consideramos 'mãe' um trabalho. Vou colocar Dona de casa", disse o funcionário friamente.

Não voltei a lembrar-me desta história até ao dia em que me encontrei numa situação idêntica. A pessoa que me atendeu era obviamente uma funcionária de carreira, segura, eficiente, dona de um título sonante.

"Qual é a sua ocupação?", perguntou.

Não sei o que me fez dizer isto; as palavras simplesmente saltaram-me da boca para fora: "Sou Doutora em Desenvolvimento Infantil e em Relações Humanas."

A funcionária fez uma pausa, a caneta de tinta permanente a apontar para o ar, e olhou-me como quem diz que não ouviu bem. Eu repeti pausadamente, enfatizando as palavras mais significativas.

Então reparei, maravilhada, como ela ia escrevendo, com tinta preta, no questionário oficial.

"Posso perguntar", disse-me ela com novo interesse, "o que faz exactamente?"

Calmamente, sem qualquer traço de agitação na voz, ouvi-me responder: "Desenvolvo um programa a longo prazo (qualquer mãe faz isso), em laboratório e no campo experimental (normalmente eu teria dito dentro e fora de casa). Sou responsável por uma equipa (a minha família), e já recebi quatro projectos (todas meninas). Trabalho em regime de dedicação exclusiva (alguma mulher discorda???), o grau de exigência é próximo de 14 horas por dia (para não dizer 24...)".

Houve um crescente tom de respeito na voz da funcionária que acabou de preencher o formulário, se levantou, e pessoalmente me abriu a porta. Quando cheguei a casa, com o título da minha carreira erguido, fui recebida pela minha equipa - uma com 13 anos, outra com 7 e outra com 3. Do andar de cima, pude ouvir a minha nova experiência (uma bebé de seis meses), testando uma nova tonalidade de voz.

Senti-me triunfante! Maternidade... que carreira gloriosa! Assim, as avós deviam ser chamadas "Doutora Sénior em Desenvolvimento Infantil e em Relações Humanas", as bisavós: "Doutora Executiva-Sénior " e as tias: "Doutora-Assistente".


Autor desconhecido.

[Edited at 2004-06-10 15:36]


 

tradusport  Identity Verified
Portugal
Local time: 08:17
Portuguese to French
+ ...
podia ter sido uma mensagem para o " dia da Mãe"... Jun 12, 2004

embora precisamente o facto de haver "um" dia da Mãe, me tenha sempre causado um sentimento algo equívoco, misturando ternura e ironia... Obrigada António. É tanto mais agradável ser um homem a publicar um artigo desse... Todo o trabalho de Mãe parece sempre tão normal e natural que raramente é valorizado cmo deveria...e ainda por cima, fica mal quando , nos dias menos bons, as mulheres têm o descaramento de fazer notar a sua dedicação " vitalícia"!
Bom fim de semana


 

Sandrinha  Identity Verified

Local time: 08:17
Member (2006)
French to Portuguese
+ ...
Bravo Nov 27, 2004

Bravo, (in)felizmente a administração sofre de estupidez latente. Tens o meu apoio, pois já viajei bastante e pude constatar que isso se verifica em muitos pontos do planeta...so sad...

 


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