Feedback de tradutores-legendadores
Thread poster: diogobarroso

diogobarroso
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May 25, 2016

Estou a finalizar um Mestrado em Tradução e Legendagem e precisava de feedback de tradutores-legendadores em relação a algumas questões acerca da realidade profissional para incluir na minha dissertação. Não tem de exercer necessariamente em Portugal, preciso apenas de opiniões em relação a algumas destas questões, mesmo que sejam curtas. Agradeço desde já pela atenção.

- Como funciona a indústria da tradução e legendagem em termos de oferta e procura?

- Quem são os principais clientes para um tradutor-legendador freelancer?

- Vantagens/desvantagens entre trabalhar como contratado ou freelancer nesta área? (remuneração, pressão de prazos, volume de trabalho, etc.).

- Quais as maiores dificuldades dos profissionais nesta área?

- Qual o método de trabalho preferido? (em termos ordem das fases do trabalho)

- Os clientes/empresas pagam mal? Porquê? Como combater isso?


Qualquer resposta é muito útil para mim. Muito obrigado pela atenção.


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Ana Vozone  Identity Verified
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Pagam mal (pouco)... May 29, 2016

O sector da legendagem (RTP e cinemas) foi esmagado com a entrada dos canais privados de TV no início da década de 90. Aquilo que era uma actividade profissional bem remunerada passou a sofrer cortes sucessivos. A razão: as agências e os profissionais de tradução/legendagem, na ânsia de angariarem trabalho nesses canais, baixaram os preços sucessivamente para valores totalmente ridículos.

Penso que hoje, em Portugal, se paga comparativamente muito menos do que o valor que era pago há quase 30 anos. E pelo mundo fora encontram-se também valores muito baixos, mas algumas agências que "pagam bem".

A legendagem passou a ser um sector super desvalorizado. E o número de tradutores que estudam legendagem é enorme, e penso que continua a crescer.

O mercado não consegue encaixar tantos profissionais e o resultado é o preço miserável que é pago a quem legenda...

Incluo aqui um link onde poderá ver as discrepâncias nos valores pagos, por exemplo, no Reino Unido e EUA.

https://www.google.pt/webhp?sourceid=chrome-instant&ion=1&espv=2&ie=UTF-8#q=subtitling%20rates%20per%20minute%20uk

Trabalhei em legendagem entre 1979 e 1995, salvo erro. Durante muitos anos, trabalhei com uma multinacional (americana) da área do "home video". Era impecável. Mas depois a empresa foi vendida a uma grande empresa distribuidora de filmes em Portugal, e os preços desceram a pique também no sector do "home video" para os clubes de vídeo que, entretanto, praticamente desapareceram.

A título de curiosidade, a concorrência entre agências de legendagem é enorme. A penúria de uma agência com que trabalhei só durante um ou dois meses (numa altura em que eu estava com pouco trabalho de tradução) em 2004 era tal, que me pediram para enviar um envelope junto com o meu recibo para depois me enviarem o cheque... A tecnologia nessa altura já era muito diferente (mais avançada) relativamente àquela a que eu estava habituada.

Penso que o cenário de preços baixos se deve manter.

E a qualidade da legendagem varia muito de canal para canal. Há traduções excelentes e outras muito más... Ainda não me dei ao trabalho de ver qual a agência do topo, mas há tradutores excelentes e até dá gosto ver! E há o contrário...

Espero ter contribuído de alguma forma, apesar de eu estar completamente fora do mercado da legendagem neste momento.


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José Henrique Lamensdorf  Identity Verified
Brazil
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Talvez fosse sinal dos tempos May 29, 2016

Ana Vozone wrote:

Trabalhei em legendagem entre 1979 e 1995, salvo erro. Durante muitos anos, trabalhei com uma multinacional (americana) da área do "home video". Era impecável. Mas depois a empresa foi vendida a uma grande empresa distribuidora de filmes em Portugal, e os preços desceram a pique também no sector do "home video" para os clubes de vídeo que, entretanto, praticamente desapareceram.


Fica difícil estabelecer a cronologia dos eventos nas empresas de legendagem, porque deve ter sido algo gradual, indiferente a que lado do Atlântico.

No caso do Português, podemos tratar Brasil e Portugal como usuários de idiomas diferentes. Nunca vi um vídeo no Brasil dublado nem legendado em PT-PT. Por outro lado, ainda hoje, volta e meia vejo na TV vídeos legendados em PT-BR nos EUA (as letras brancas são o padrão deles, apesar de alguns saberem que no Brasil usamos letras amarelas nas legendas).

Temos uma sobreposição de épocas, Ana. Comecei a traduzir para dublagem em 1987, e passei a traduzir para legendagem também a partir de 2004.

O equipamento para dublagem, na época, era o U-Matic, depois passou para o Betacam. De qualquer modo, o estúdio, os artistas, diretores, técnicos compunham um "entourage" enorme, fora do alcance de qualquer um.

Hoje em dia, eu até consigo, e já fiz, equalizar, mixar, aplicar SFX e Foley em vídeos relativamente simples no PC. Porém umas gravação de áudio decente ainda exige todo esse entourage.

Nos anos 90, a legendagem, ainda analógica em fita, já conseguia se prevalecer dos recursos digitais. Era possível fazê-la com uma ilha de edição, um GC (gerador de caracteres) e um Genlock para sobrepor as legendas na imagem do vídeo analógico. Um conjunto muito caro.

Quando entrei na legendagem (2004, como disse), já era tudo digital. Em poucas semanas descobri que poderia fazer o serviço completo de tradução e legendagem num PC comum com qualidade acima de qualquer crítica. Poucos meses depois já estava autorando DVDs interativos bem complexos no mesmo PC.

Com o crescimento exponencial do volume da indústria cinematográfica e televisiva, a demanda cresceu muito. O que ocorreu paralelamente foi a queda vertiginosa dos custos de "pós-tradução" na legendagem, em função do equipamento muito mais simples e barato.

Pelo trabalho que dava (era preciso redigitar a tradução datilografada no GC), pela possibilidade de usar equipamento de custo muitio mais acessível, e considerando que não ficou tão mais fácil nem mais rápido TRADUZIR um vídeo, o custo de tradução passou a representar uma parcela significativamente maior do total, o que deve ter despertado o apetite por preços mais baixos nessa fase do processo.


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diogobarroso
Portugal
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TOPIC STARTER
razões para os valores baixos... May 30, 2016

Agradeço desde já aos comentários sobre o tema.

Pelo que percebo, e vendo comentários em forums paralelos, os preços variam bastante nos EUA e na Europa, mas a maioria das pessoas trabalha com valores na ordem dos 3 euros pm (vi muitos exemplos abaixo e acima deste valor), claro que há muitas variantes a ter em conta.
No entanto, pelo que também me parece, a tendência geral nos últimos anos foi a de os valores pagos baixarem substancialmente e a razão mais lógica parece-me ser realmente devido à simplificação dos processos de legendagem e, talvez, por haver demasiados profissionais/agências neste mercado específico? É que não entendo bem: se a oferta aumentou tanto, tem de haver razões óbvias para os valores pagos aos tradutores/legendadores serem tão baixos. Em Portugal, os valores são ridículos (a média é de 2 euros pm). A questão do "fansubbing" e de a legendagem hoje em dia ser um processo tecnicamente "acessível" a muitos não explica com certeza tudo. Daí que, para mim, fosse importante perceber como funciona este mercado, ou seja:

As traduções para cinema e para a maioria dos canais são feitas por empresas/agências de tradução?
Pelo que vejo, os grandes canais têm as suas próprias equipas internas.

A grande maioria dos tradutores/legendadores freelancer trabalha directamente para essas empresas/agências? Este regime de trabalho em freelancing, que é abundante nesta área, faz aumentar a situação de precariedade do trabalho? (já que isto gera a possibilidade de especular por baixo os preços que são pagos).

Enfim, de qualquer forma vou tendo mais matéria para dissertar, e agradeço novamente o contributo e futuros comentários.


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António Madeira
Portugal
Local time: 23:00
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Mercado? Qual mercado? Jun 1, 2016

Saudações.

Sou tradutor e legendador especializado em documentários e trabalho na área há dez anos, quer em TV, quer em cinema.
Conheço a realidade deste mercado anterior a 2007 apenas por relatos de colegas, uns que ainda trabalham nisto e outros que pura e simplesmente deixaram de o fazer devido aos preços ridículos que se praticam, tendo muitos deles emigrado ou procurado outras atividades, mas posso confirmar os relatos que já aqui foram deixados pelos colegas, de que era bem melhor do que é hoje.
Pela minha experiência (ainda curta, mas a tempo inteiro), os canais por cabo dizimaram o mercado. Sei de várias agências que contratam miúdos que estudam na faculdade (e outros nem isso) e que fazem legendas nos tempos livres para ganhar mais uns trocos ao fim do mês. Este é o principal motivo pela fraca qualidade das traduções e legendagens que, em geral, se veem por aí, e no Brasil ainda é pior, com resultados desastrosos, como é exemplo o recente canal da BBC Earth. Há, inclusive, os que usam tradutor automático, como eu já vi no canal Hollywood...

Houve ainda o caso do fim das locuções, com o qual eu concordei, porque nunca gostei de ver programas dobrados, mas o problema é que passámos a ter de traduzir e legendar sem que houvesse qualquer aumento no preço por minuto. Este foi o verdadeiro motivo pelo qual vários canais passaram a ter legendas em vez de locução em português. Passámos a trabalhar mais horas e a receber o mesmo.
Em dez anos, nenhuma agência (e foram várias) me ofereceu um preço por minuto acima de 1,85 €. Só por aqui dá para ver como isto está, e já tive canais de séries a oferecerem-me 1 € por minuto de tradução e legendagem.
Independentemente de um programa ter 800 linhas ou 400, o preço por minuto é o mesmo, mas a "contratação" de tradutores e legendadores não qualificados minou por completo o mercado, e os preços continuam a baixar.
Recentemente, uma das maiores empresas de conteúdos para a TV por cabo, americana com sede em Espanha, fez um leilão de preços pelas agências em Portugal, cortando o preço por minuto em 15%.

Quanto a pagamentos, nunca ninguém me falhou, mas estes são sempre feitos a 60 e 90 dias, conforme a empresa, e sempre a recibos verdes, claro está.

Sinceramente, não vejo forma de lutar contra este status quo. Se recusarmos trabalho quando há tanta gente não qualificada a saturar o mercado, ficamos, literalmente, sem nada que fazer.
A somar a tudo isto, o público não se queixa (ou queixa-se muito pouco). Estou certo de que se houvesse mais queixas, as empresas começariam a pensar duas vezes na hora de recrutar e pagar dentro das condições que referi.


Respondendo diretamente às perguntas colocadas:
As traduções para cinema e para a maioria dos canais são feitas por empresas/agências de tradução? Pelo que vejo, os grandes canais têm as suas próprias equipas internas.
R: Para TV, as traduções são sempre feitas por agências ou, no caso de alguns canais, pelas próprias equipas. Para cinema, depende do distribuidor.


A grande maioria dos tradutores/legendadores freelancer trabalha directamente para essas empresas/agências?
R: A mesma resposta que em cima.

Este regime de trabalho em freelancing, que é abundante nesta área, faz aumentar a situação de precariedade do trabalho?
R: Sem dúvida.


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José Henrique Lamensdorf  Identity Verified
Brazil
Local time: 19:00
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Sigam a trilha do dinheiro! Jun 1, 2016

António Madeira wrote:

Pela minha experiência (ainda curta, mas a tempo inteiro), os canais por cabo dizimaram o mercado. Sei de várias agências que contratam miúdos que estudam na faculdade (e outros nem isso) e que fazem legendas nos tempos livres para ganhar mais uns trocos ao fim do mês. Este é o principal motivo pela fraca qualidade das traduções e legendagens que, em geral, se veem por aí, e no Brasil ainda é pior, com resultados desastrosos, como é exemplo o recente canal da BBC Earth.
...
Sinceramente, não vejo forma de lutar contra este status quo. Se recusarmos trabalho quando há tanta gente não qualificada a saturar o mercado, ficamos, literalmente, sem nada que fazer.
A somar a tudo isto, o público não se queixa (ou queixa-se muito pouco). Estou certo de que se houvesse mais queixas, as empresas começariam a pensar duas vezes na hora de recrutar e pagar dentro das condições que referi.



Uma apreciação bastante coerente e válida.

Quanto a uma possível solução, a receita está no conhecido suivez l'argent.

Tradutores e telespectadores bilíngues igualmente indignados escrevem reclamando para as emissoras ou operadoras de TV a cabo, ou então postam na mídia social.

As emissoras dizem que receberam o filme/seriado assim da distribuidora. As operadoras de TV a cabo alegam que apenas retransmitem o sinal com as legendas do canal original. Ambas, junto com o eleitorado da mídia social, se limitam a dar risada. Ninguém segue a trilha do dinheiro.

Quando a TV a cabo começou no Brasil, não havia propaganda, intervalos comerciais. O serviço incipiente oferecia isso como vantagem sobre a TV aberta, seu modelo supondo o sistema sustentado pelas assinaturas.

Na segunda fase, colocaram os intervalos comerciais, e os anúncios começaram a preencher o horário. Um episódio de normalmente 42 minutos de duração passou a preencher uma hora inteira. Fazendo as contas, 1 - (42/60) = 30% do tempo consistia de anúncios.

Vejo que recentemente alguns canais passaram para a terceira fase. Mando o DVR fornecido pela operadora gravar um episódio qualquer (os mesmos 42 minutos), e a duração da gravação agora é 1h10. Refazendo as contas, 1 - (42/70) = 40% do tempo é de intervalos comerciais.

Os patrocinadores pagam verdadeiras fortunas (para o padrão monetário de um mortal comum) para ter seus anúncios veiculados. Digamos que um deles tenha feito inserções em quatro intervalos ao longo de uma hora de exibição. Não é absurdo. Em vários canais, o Trivago coloca até mais de uma inserção por intervalo.

O espectador monoglota começa a assistir um episódio do seu seriado predileto. Graças à legendagem feita com tradução de nível amador iniciante, não entende nada do que se passa e, no primeiro intervalo desiste, e muda para outro canal.

O resultado é que das quatro inserções que o nosso patrocinador em questão pagou, apenas uma, se tanto, será vista. Esse patrocinador terá literalmente jogado fora 75% do seu investimento!

A meu ver, a situação só tenderá a melhorar quando os patrocinadores incluírem uma cláusula nos seus contratos impondo pesados descontos no caso de seus anúncios serem exibidos em meio a programas mal dublados ou mal legendados, que motivem o espectador a procurar outra opção de entretenimento. Evidentemente, será preciso montar um mecanismo de feedback para o telespectador se manifestar a respeito.

Assim o destinatário das verbas de propaganda do anunciante irá se preocupar em colocar cláusulas semelhantes nos seus contratos, até as penalidades pecuniárias chegarem a quem efetivamente contrata o serviço de tradução e legendagem.

A sequência inteira tem sua lógica, porém essa trilha não está sendo usada.


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